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Como escrever bem – Saiba como ser claro sem ser confuso

Tanto na fala quanto na escrita, o principal objetivo da linguagem é comunicar. Mas então, por que temos tanta dificuldade em expressar de forma clara aquilo que queremos dizer? E especificamente, na escrita profissional, por que essa dificuldade é ainda mais intensa quando passamos nossas ideias para o papel?

Para muitos, escrever é uma atividade desafiadora. Seja pela insegurança em relação ao conhecimento das normas gramaticais ou pela dificuldade de manter uma linha de raciocínio, todos já estiveram na posição de olhar para um papel em branco e pensar: “e agora?”. Para explicar essa dificuldade, podemos começar ponderando as diferenças entre a fala e a escrita. 

Fala x Escrita

A fala é marcada, principalmente, pelo coloquialismo. Apesar de ser necessário respeitar certos critérios, como a quem você se dirige ou de onde você fala – por exemplo, a linguagem utilizada numa entrevista de emprego deve ser diferente de uma conversa numa mesa de bar. 

A fala conta com alguns recursos linguísticos, como gestualização, expressões faciais, entonação, divagações, repetição de ideias para enfatizar o discurso, prolongamento de vogais para “dar um tempo” e pensar no que deve ser dito em sequência (éééé, aaaaa) etc.

Em contrapartida, a escrita profissional não oferece espaço para algumas características presentes na fala – com exceção de textos estilísticos e gêneros narrativos. Assim, na maioria das vezes, a escrita é marcada pela linguagem formal, exigindo um cuidado maior no desenvolvimento e na exposição das ideias. 

Ao contrário da fala que, por sua espontaneidade, permite alguns deslizes gramaticais, a escrita demanda o respeito pela norma culta, bem como a atenção pela coesão e coerência. 

Apesar de muitos sofrerem com pontuação, concordância e – a tão misteriosa – crase, a dificuldade da escrita não está, de fato, na gramática e seus usos. Na verdade, o que vemos em muitos textos são frases mal formadas, problemas coesivos, imprecisão lexical e uma má organização textual. Fazendo com que o grande problema da escrita, normalmente, esteja na dificuldade de exposição clara das ideias.

Mas, afinal, o que é escrever bem?

Mais do que respeitar as infinitas regras gramaticais presentes no português brasileiro, escrever bem é conseguir sintetizar de forma clara e objetiva suas ideias, estabelecendo relações de sentido entre todas as partes do texto, desde a introdução até a conclusão.

Principalmente, escrever bem é conseguir analisar e respeitar as características exigidas em cada tipo de texto. A escrita não possui fórmula, bem como o texto não é único e nem possui as mesmas necessidades. Mas como assim?

Cada texto possui um objetivo, uma estrutura, uma plataforma de veiculação, um público-alvo, um gênero específico, e por aí vai. 

Nesse sentido, um bom escritor consegue balizar sua habilidade de escrita conforme a necessidade que cada texto demanda, considerando, essencialmente, a clareza de suas ideias, a fim de respeitar a principal função da linguagem: comunicar.   

Para esclarecer algumas dúvidas e ajudá-los nessa tarefa que não é nenhum bicho de sete cabeças, separamos algumas dicas valiosas para aplicar na hora de redigir seu texto. 

Escrever bem não é escrever difícil 

Assim como temos o senso comum de que escrever bem é meramente conhecer e aplicar as normas gramaticais, existe também a noção de que é preciso ser prolixo, utilizar terminologias pomposas e construir sentenças complexas para escrever um bom texto. E é aqui que reside o perigo.

Na tentativa de “escrever bonito”, muitos erros acabam passando despercebidos, como o uso inadequado de alguma palavra e a construção de frases ambíguas. Além disso, o texto, por vezes, fica incompreensível e até mesmo inacessível para os leitores.  

Sendo assim, em primeiro lugar, evite preciosismos linguísticos. Segundo o dicionário informal, preciosismo é o emprego desnecessário de vocábulos de “baixa frequência” (palavras de significado desconhecido da maioria das pessoas), arcaicos ou em língua estrangeira ou ainda qualquer forma afetada de expressão verbal. Resumidamente, não use uma palavra só porque você a acha bonita.

Ainda na definição dicionarizada, temos a abordagem da “ordem inversa”: Constitui também preciosismo o abuso da ordem inversa e, na expressão oral, o linguajar próprio do padrão formal (língua escrita)”. 

Para compreender isso é importante lembrar que no português brasileiro a construção frasal mais comum e utilizada é a ordem direta do discurso: Sujeito + Verbo + Objeto. Já na ordem inversa (ou indireta), temos o deslocamento desses termos. É pelo uso excessivo da ordem inversa que, muitas vezes, temos texto com problemas de sentido e ambiguidades. 

Por isso, uma dica simples e fácil para um discurso mais claro e objetivo é prezar pelo uso da ordem direta. O segredo da boa escrita está na simplicidade dos usos que você faz da língua. Portanto, elimine vícios de linguagem e fuja dos preciosismos, pois eles apenas afastam o leitor.

Saiba o propósito do seu texto

Entender que cada texto tem seu objetivo, seu público-alvo e suas características próprias é essencial para a construção de uma boa escrita profissional. É por meio da análise dessas questões que você conseguirá modular sua linguagem; estruturar e organizar seu texto; além de pensar qual é a melhor forma de apresentá-lo.

Isso pode parecer um pouco óbvio, mas não é! Devido às experiências individuais de cada escritor, existe uma tendência de padronizar a escrita. Por exemplo, muitos universitários têm dificuldades em sair dos padrões exigidos pela academia, e acabam achando que a vida deve ser regrada pelos padrões da ABNT. O que faz com que eles encontrem dificuldades na hora de redigir outros gêneros textuais.

O mesmo ocorre em áreas especializadas, em que os indivíduos estão acostumados com a escrita técnica, cheia de jargões e estruturada de uma forma mais rígida. 

Para superar esse problema, podemos (e devemos) fazer quatro perguntas antes de começar o texto: qual o objetivo do meu texto? Quem o lerá? Ele pertence a que gênero textual? Onde ele circulará? 

Essas perguntas ajudam a guiar a escrita, mostrando qual o melhor caminho para desenvolver as ideias em forma de texto. 

Organize seu texto antes de desenvolvê-lo

É muito difícil simplesmente sentar e escrever abruptamente um texto sem um preparo inicial – e quem consegue essa proeza, parabéns 😉

Como exposto acima, a escrita não tem as marcas espontâneas da fala. Ela exige uma dedicação e um tempo maior. Como podemos ver até aqui, o ato de escrever exige a consideração de muitas questões.

Para não se confundir e criar um emaranhado de ideias no papel, é interessante separar suas ações e topicalizar o que deve ser pontuado no texto. Por exemplo, em textos acadêmicos, é muito comum estruturar primeiro o sumário antes de iniciar os capítulos. Assim como o sumário é um guia para o leitor, ele também é uma ótima forma de ver como seu texto deverá ser desenvolvido. 

Então, para organizar e otimizar sua escrita, faça uma lista do que deve ser feito, topicalize de forma hierárquica as ideias que você deseja desenvolver, separe seus capítulos (e até mesmo a quantidade de páginas que você reservará para cada um). 

Feita essa organização, você tem o “esqueleto” central do seu texto, facilitando o desenvolvimento da massa textual.  

Fique atento às normas gramaticais 

Apesar de um bom texto envolver inúmeras questões que não só as regras gramaticais, ainda assim elas precisam ser respeitadas, visto que a gramática estabelece padrões que preservam o sistema da língua.

Para muitos, essas normas são confusas e um verdadeiro mistério. Mas não se assuste! Pela nossa experiência enquanto falantes, acabamos absorvendo inconscientemente vários padrões linguísticos e, consequentemente, aplicamos eles no dia a dia. 

É claro que não sabemos tudo, por isso há a necessidade de estudar essas normas. E, por isso, é importante tentar identificar nossas maiores dificuldades e gastar um tempinho estudando-as.

Além disso, é interessante ter um manual gramatical reserva para consultas. Na literatura, existem vários guias práticos da língua, os quais descrevem as normas gramaticais pelos seus usos, de forma clara e acessível. 

Como exemplo, temos o livro “Para Falar e Escrever Melhor o Português”, de Adriano da Gama Kury, em que o autor, por meio de uma linguagem leve e bem-humorada, explica didaticamente as normas que regem a Língua Portuguesa. 

Fugindo um pouco da normatividade, temos também o livro “Gramática de usos do português”, de Maria Helena de Moura Neves (linguista brasileira), que observa os usos correntes da língua na tentativa de sistematizá-los.

E, claro, existem outras várias outras bibliografias que ajudam e facilitam a vida de quem sente dificuldades na hora de escrever. Portanto, o necessário não é saber tudo sobre gramática, mas sim estudar e praticar seus usos. 

A clareza parte da coesão

A coesão é um dos elementos primordiais para a redação de um texto claro. Ela é responsável por interligar as ideias e as partes textuais, criando uma linha de raciocínio fluida e compreensível, estabelecendo também relações de sentido.

Existem vários tipos de coesão, como coesão referencial, lexical, sequencial, por substituição, por elipse etc. Mas, para simplificar o entendimento, vamos para a dica: use e abuse de palavras de transição. 

Palavras de transição são termos que estabelecem relações entre as frases e os parágrafos do texto. Essas relações podem ter diversos sentidos: adição, continuação, contradição, explicação, finalidade, e por aí vai.

Alguns exemplos mais utilizados: além disso, assim, portanto, contudo, entretanto, dessa forma, nesse sentido, conforme, segundo… enfim, uma infinidade de possibilidades.

Caso queira aprofundar seu conhecimento sobre coesão textual, vale a pena conferir o livro “Lutar com Palavras. Coesão & Coerência”, de Irandé Antunes. Nele, a autora esclarece pontos importantes para a produção de um bom texto, sem aquela “receita” que, infelizmente, ainda é passada nas escolas. 

Ler para poder praticar

Como dito anteriormente, nosso conhecimento linguístico é adquirido, majoritariamente, por absorção, de acordo com as experiências individuais.

Nesse sentido, grande parte do contato que temos com a língua é por meio de textos escritos, e é assim que absorvemos, por exemplo, a ortografia das palavras, as construções frasais, estabelecemos relações de sentido, observamos como se desenrola um enredo, dentre outras noções que formam o sujeito leitor.

Portanto, para melhorar suas habilidades de escrita, é muito importante manter o hábito constante de leitura, e, principalmente, variar os estilos de texto. Dessa forma você enriquece seu repertório e consegue perceber as particularidades da escrita.

Tendo isso em mente, se você precisa escrever um artigo científico, procure e leia alguns artigos já publicados – da sua área, é claro. Compare e analise a linguagem utilizada, veja como o texto foi estruturado e como as informações foram expostas. E ah, por favor, mantenha também uma visão crítica do que você está lendo, questionando o que pode ser melhorado. 

Acho que acabou, né?

Afinal, não existe receita nem fórmula mágica para escrever um bom texto. As dicas aqui elencadas buscam apenas abrir caminho para você conseguir aprimorar sua escrita.

Por fim, mas não menos importante, uma afirmação pode ser feita: escrever bem e com clareza está intimamente relacionado aos usos que você faz da língua em prol da acessibilidade, comunicação e compreensão do leitor. Ou seja, sua escrita deve criar pontes para o conhecimento, e não barreiras intransponíveis.  

Tipo de conteúdo
#livrosPara Falar e Escrever Melhor o Português, de Adriano da Gama Kury;

Gramática de usos do português, de Maria Helena de Moura Neves.

Lutar com Palavras. Coesão & Coerência, de Irandé Antunes.

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